“Não existe arquitetura sem moda”: Evento na UFT propõe revolução na cadeia têxtil do Tocantins
Aula aberta reúne especialistas em para debater consumo consciente, transparência industrial e identidade regional.
Ao som de clássicos da música pop, com direito a show de ballroom, ambientação boho chic e o pôr do sol como parte do paisagismo do evento, o rooftop da Universidade Federal do Tocantins (UFT) virou palco, ou melhor, passarela da aula aberta Caminhos da Moda, que propôs um debate sobre arte, expressão,arquitetura e experiências do mundo fashion.
Como tema “Caminhos para fortalecer a cadeia têxtil tocantinense”, o evento, realizado nesta quinta-feira, 28, integrou o currículo do curso de Arquitetura e Urbanismo da universidade e incentivou o debate sobre a integração entre moda e arquitetura, além de reunir estudantes de diferentes cursos e instituições e profissionais da área. Dividido em blocos de conversas com especialistas, a ação abordou temas como produção, cultura, território e identificação.
O professor do curso e principal idealizador e organizador do evento,Tom Reis, explica que a ideia surgiu pelo anseio dos próprios alunos em entender a arquitetura de maneira plural e inclusiva, o que pôde ser feito com a moda ao relacionar a maneira de expressão dos dois âmbitos. “Desenhar uma roupa, uma fachada, um espaço ou uma imagem é também desenhar modos de viver. Por isso, falar de moda na arquitetura é falar de corpo, cidade, território, cultura, memória e futuro”, pontua.
De acordo com a estudante do primeiro período do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFT, Sofia Schneider, a experiência foi enriquecedora. Segundo a aluna, o debate sobre consumo consciente, impactos ambientais das fast fashions e valorização da moda tocantinense trouxe uma nova percepção sobre o setor, compreendendo a moda para além do estilo e do consumo.
“Eu achei muito importante trazer esse debate, principalmente para fazer a gente parar e refletir sobre o impacto das nossas escolhas dentro da moda. Às vezes a gente enxerga só a tendência ou o estilo, mas existe todo um processo por trás disso. Também fiquei muito feliz em ver a universidade promovendo esse tipo de iniciativa”, destaca.
O caminho por trás da Moda
Durante décadas, a moda foi frequentemente associada apenas ao consumo e à estética, sendo subestimada por muitas pessoas que ainda relacionam esse tema apenas à aparência ou luxo. No entanto, segundo compilados por relatórios da indústria global de moda (Fashion Industry Reports), da plataforma Statista, o mercado está avaliado em 1,84 trilhão de dólares, o que representa uma fatia de 1,63% a 1,65% do PIB mundial, além de empregar, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), cerca de 430 milhões de pessoas na produção têxtil, o que simboliza quase 12% da força de trabalho global ativa, e 90 a 91 milhões de trabalhadores na fabricação direta.
Ou seja, na prática, ela funciona como um dos maiores espelhos sociais, econômicos e culturais de uma época. Afinal, o jeito como as pessoas se vestem nunca é “só roupa”, isso comunica classe social, identidade, comportamento, valores, profissão, gênero, religião, geração e até posicionamentos.
Para a artista visual, Lara Faez, iniciativas como a aula aberta representam um espaço fundamental de troca, reflexão e aproximação entre diferentes áreas do conhecimento, o que proporciona maior divulgação, inserção do mercado e principalmente, democratização desse tipo de discussão. Ela também destacou sobre a importância de compreender e enxergar toda a cadeia envolvida na produção de uma peça, desde o cultivo da matéria-prima até os processos de criação, costura, transporte, comercialização e customização.
“Tudo isso reflete no caminho percorrido antes que a roupa chegue ao nosso guarda-roupa. Infelizmente, muitas pessoas ainda subestimam a moda e não reconhecem sua potência para além da estética, principalmente pela falta de acesso à informação qualificada sobre o tema. Quando esse conhecimento não circula, especialmente no contexto regional, a área acaba desvalorizada. Por isso, iniciativas como essa aula aberta são fundamentais para popularizar essas discussões, ampliar o acesso ao conhecimento e fortalecer a compreensão da moda como fenômeno cultural, social e econômico”, chancela.
A revolução como um caminho
A ação integrou a agenda do movimento Fashion Revolution, uma corrente global, presente em 100 países, que incentiva maior transparência,sustentabilidade e ética na indústria da moda por meio da sensibilização, informação e mobilização.
Conforme a primeira representante do movimento no Estado, Gab Agostini, a iniciativa nasce com o propósito de desconstruir a ideia de que a moda pertence apenas a uma elite ou a espaços inacessíveis. A especialista explica que o objetivo é democratizar o acesso à informação, aproximar a comunidade desse universo e mostrar que a moda também pode ser instrumento de identidade, expressão e pertencimento.
“A gente quer mostrar que existe espaço para todo mundo dentro da moda. Muitas vezes as pessoas enxergam esse universo como distante da realidade delas, quando, na verdade, ele está presente no cotidiano, na cultura, na arte e na forma como cada pessoa se expressa e posiciona”, afirma.
Ele nasceu em 2013, como forma de protesto e resistência ao desabamento do edifício Rana Plaza, que abrigava confecções de roupas em Blangadesh e deixou mais de 1.100 mortos e 2.500 feridos. Ou seja, o Fashion Revolution trabalha desde questões sobre situações precárias de trabalho, que infelizmente ainda são recorrentes na indústria têxtil, até formas de consumo consciente, a sustentabilidade e consumo consciente.
A mobilização ficou conhecida principalmente pela campanha “Who made my clothes?” (“Quem fez minhas roupas?”), que incentiva consumidores a refletirem sobre todo o processo por trás de uma peça: quem produziu, em quais condições, com quais materiais e quais impactos foram gerados. Sob essa perspectiva, a corrente global defende a moda enquanto forma de existir e sobreviver, uma vez que ela é uma forma de posicionamento e o consumismo pode ser uma válvula de escape.
A caminho de um propósito
A moda também se relaciona com propósito, identidade e posicionamento. Em um cenário marcado pela pluralidade de estilos e pela valorização da autenticidade, se vestir passou a representar não apenas escolhas estéticas, mas formas de comunicar ideias, origens, referências culturais e modos de existir. Nesse contexto, a construção de uma assinatura de estilo própria ganha força como reflexo de personalidade, consciência e expressão individual.
“Não existe arquitetura sem moda”, defende o arquiteto, influenciador e empreendedor Fábio Marx. Famoso por sua personagem “Sheyla Cristina”, uma arquiteta cômica e cheia de personalidade, ele analisa o crescimento constante da Capital e o amadurecimento de sua identidade estética. Em sua percepção, ambas as áreas compartilham do mesmo propósito social: “É necessário entendermos a sociedade para criar uma solução, e fazemos isso por meio das construções, na arquitetura, e analisando estilos e tendências, na moda”, conclui. ( Por Maria Laura Porto)
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